Ainda nem uma réstia de sol inunda a opacidade no jardim que há tanto tempo não revia na aurora – amarelos de papoulas, veludos de crisântemos, lábios de orquídeas – e já as vejo na cegueira excessiva da consternação primeva, incandescente cuja única sombra que resta cede sob elas, eu já as tenho aqui assim, sem ter o que teria qualquer razão de espera ou sentença de motivos; nenhuma paciência nascida minha resistiria ao escandir de cada sinônimo de entrega a tudo que se reverbera, quando não, já se está lá, após, do outro lado... ao sol. Mas abro a janela, respiro a manhã profundamente, um vento causa-me pele aos sentidos, permito-me o prazer solitário de só as minhas pálpebras se beijarem e abrindo os olhos tanjo intrépido as flores, os rumores do tempo, os contornos do delírio; volto os olhos para dentro do quarto para o rente torpor que ainda lateja no corpo e trago com eles a claridade fria que invade os lençóis desalinhados, e assim, dignos de cálida presença. Ouço-a? ou transbordo silêncio de mais vendo-a lentamente a desatar sonhos dos cabelos? Prefiro não acordá-la, deixo que sozinha, ajeitando a camisola que já expõe a ânsia de seu corpo, se embriague na cumplicidade dos seus sonhos. Não me importa se neste, caso seja, ou se fizera alguma vez no seu sono abrigo do que reflito em gestos, palavras, suor e silêncio...
Em silêncio danço os olhos com as cortinas que enfunam da janela com um balão.
De repente, sua mão distraída encontra meu peito reconhecendo uma procura minha, o que não nascera antes de nós.
Por enquanto, ofertamo-nos assim.
16 comentários:
É muito bom ver quem a gente gosta conseguir seus objetivos. Fico feliz em ver que mesmo no corre-corre você conseguiu criar seu blog. Confesso que arrumarei tempo no meu corre-corre para, sempre que possível, ler teus textos. Parabéns pela sua Aurora.
Abraço.
Carlos
Eu gostei desse texto... especialmente a frase "Não procuro dilatar o que a isso pode acontecer, e neste ainda se tornará o inevitável imprevisível." Ui... falou bonito! :D Começou bem.
Abraço forte! Fico contente e surpreso. Iniciaste o que parecia inevitável!!
Parabéns pela Aurora e a profundidade que nela encontramos. Simplesmente lindo!
Grande beijo.
meu amigo poeta!
investe nisso...
como já te disse, e continuo dizendo...
vc vai longe...
tenho mt orgulho de ti!
te amo!
É encantador o estilo poético do texto. Diria que tem um pouco da complexidade de Saramago e da sutileza de Fernando Pessoa, sem perder o "Eu Augusto dos Anjos" que existe em Elio Avelino... Muito bom!
Luciana Brito
Putz! Muito profundo. Gostei da pontuação do texto, quase um Saramago. Muito massa Elio. Sempre entrarei aqui para o prazer de ler textos assim. Abrá. =)
Sensibilidade na Aurora!!!
A beleza e a luminosidade das palavras, na expressão do contexto, levanta a certeza do Homem e do Amor. Tudo de bom, parabéns!
Glauce
Quis dizer que encontrei bem mais do que simplesmente vi, meu amigo. Gostei do teu primeiro passo. Concisão e perspicácia na medida certa. Abraço.
Ao lêr " Aurora", pude perceber a maturidade de um grande Poeta. Élio, você é maduro e sensível ao ponto de tocar profundamente a alma de cada leitor. Te desejo toda sorte do mundo !!!
Parabéns pelo texto!!!
Dicla Chagas
18 de março de 2008 11:41
meu filho lindo e poeta... saudades de vc! Adorei a novidade!
L�cia
Muito bom! Que venham os próximos raios dessa aurora. Muito bonito.
CICLOPE
Confesso que seu primeiro aparecer aqui assemelha-se à própria "aurora" pela luz nova e delicada que transmite nestas suas palavras de amor.
Encantador!
beijos
P.S. Agradeço-lhe pela gentileza da visita e das palavras
Muito bom, Elio! Seu texto tem uma profundidade de cortar a alma, sinto uma angústia ao lê-lo, não sei por que relutas tanto em mostrar teus escritos és um escritor de mão cheia, não tens com o que em dúvida. Dúvidas apenas de uma coisa, das palavras que vivem a nos trair. Desculpe a demora para ler, mas estava bastante ocupado! Um abraço!
Luiz Antonio
quando voce morrer,morre com voce um jeito de ver.queria estar com voce pra celebrar esse teu jeito de ver as coisas.te admiro muito meu amigo.
"Um vento causa-me pele aos sentidos".. adorei.
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