sexta-feira, 7 de março de 2008

Aurora

Ainda nem uma réstia de sol inunda a opacidade no jardim que há tanto tempo não revia na aurora – amarelos de papoulas, veludos de crisântemos, lábios de orquídeas – e já as vejo na cegueira excessiva da consternação primeva, incandescente cuja única sombra que resta cede sob elas, eu já as tenho aqui assim, sem ter o que teria qualquer razão de espera ou sentença de motivos; nenhuma paciência nascida minha resistiria ao escandir de cada sinônimo de entrega a tudo que se reverbera, quando não, já se está lá, após, do outro lado... ao sol. Mas abro a janela, respiro a manhã profundamente, um vento causa-me pele aos sentidos, permito-me o prazer solitário de só as minhas pálpebras se beijarem e abrindo os olhos tanjo intrépido as flores, os rumores do tempo, os contornos do delírio; volto os olhos para dentro do quarto para o rente torpor que ainda lateja no corpo e trago com eles a claridade fria que invade os lençóis desalinhados, e assim, dignos de cálida presença. Ouço-a? ou transbordo silêncio de mais vendo-a lentamente a desatar sonhos dos cabelos? Prefiro não acordá-la, deixo que sozinha, ajeitando a camisola que já expõe a ânsia de seu corpo, se embriague na cumplicidade dos seus sonhos. Não me importa se neste, caso seja, ou se fizera alguma vez no seu sono abrigo do que reflito em gestos, palavras, suor e silêncio... em sonhos. Não procuro dilatar o que a isso pode acontecer, e neste ainda se tornará o inevitável imprevisível. Aproximo-me da cama devagar, quase imóvel ao alcance do que tivera e sem saber que sonho deveria ter tido.

Em silêncio danço os olhos com as cortinas que enfunam da janela com um balão.

De repente, sua mão distraída encontra meu peito reconhecendo uma procura minha, o que não nascera antes de nós.

Por enquanto, ofertamo-nos assim.